De onde vem o que comemos?

Há alguns anos compro semanalmente uma bela cesta de hortifruti orgânicos. Qualidade, sabor e amabilidade me fidelizaram como cliente. Como mãe e nutri, além de priorizar alimentos de verdade para meus filhos, incentivo a aprendizagem do sistema alimentar como um todo. E foi assim que nasceu a ideia de visitar com as crianças os principais produtores dos alimentos que compramos para nossa casa.

Fizemos alguns contatos e agendamos três visitas aos sítios do Bairro Demetria em Botucatu, dentre os principais produtores orgânicos e biodinâmicos do Brasil. O primeiro que nos recebeu foi o Sítio Alvorada.

Cultivos orgânicos de morangos lindos e doces! A criançada amou caçar os vermelhos e achar as florzinhas no meio do cultivo. Subiram em trator, abriram vagens e comeram ervilhas cruas. Adocicadas e macias.

Visitamos o berçário das plantas, onde sementes delicadas germinam antes de serem plantadas na terra. Folhas de todos os tipos dão um colorido de verdes inimaginável. Nesses cultivos, não há monocultura e a rotação garante solos sempre nutritivos. Não sei se todos sabem, mas o valor nutricional de um determinado alimento varia enormemente dependendo do solo que é cultivado. Nas tabelas nutricionais e nos cálculos que a nutricionista faz, usamos apenas os valores médios. Solos de boa qualidade nutricional asseguram o maior esplendor nas características físicas e organolépticas dos alimentos.

Também conhecemos as estufas que garantem cultivos especiais: tomates, pepino japonês e pimentões – campeões de agrotóxicos na agricultura convencional – aqui crescem felizes organicamente.

O sítio conta com uma loja/cafeteria charmosérrima na entrada do bairro, onde há uma feira permanente de folhas, frutas, legumes e vários produtos orgânicos, como pães artesanais, mel e sementes. Tudo muito bem pensado para agradar adultos e crianças, na gastronomia e na arquitetura.

Cerejeiras floridas e brinquedos ao ar livre permitem apreciar ainda mais a comida que faz bem ao corpo, à alma e ao meio-ambiente.

No segundo dia visitamos o Sítio Bahia. Somos recebidos pelo dono, formado na Inglaterra e que nos explica detalhadamente como funciona a criação de gado livre, a pastagem de excelência nutritiva para as vacas grávidas e as que amamentam. O “ouro” da fazenda como ele diz é o composto perfeitamente elaborado a base de esterco. Esse composto nutre a terra para que as melhores gramíneas nasçam. Entre os pastos, amoreiras crescem enfileiradas. Os animais pastam livres, em sistema de rotação da terra. Há também porcos, cavalos e os bezerros daquelas vacas que só produzem leite em contato com seus filhotes. As crianças puderam brincar e interagir com os animais livremente.

No sítio funciona um laticínio com produção artesanal de sorvetes, iogurtes, queijos brancos e amarelos, manteiga, tudo 100% orgânico. Provamos o sorvete de morango e é realmente fabuloso: bem cremoso, intenso sabor da fruta e com pedaços delicados. Vimos também a produção de geleia de amora orgânica, com todo seu perfume adocicado. 

As crianças adoraram entrar no caminhão do Sítio. Bonitão e todo colorido, faz uma bela propaganda. Eles saem do campo às 23h para chegarem à cidade e estarem com tudo pronto às 6h da manhã na feira, 3 vezes por semana. Os donos pessoalmente são os comerciantes, os agricultores, os administradores e todas as mil funções requeridas para todo o trabalho do campo existir. Não parece muito mais calma que a vida da cidade, embora todos tenham um semblante sereno e feliz.

A visita vai terminando e engatamos um papo quase filosófico sobre nossos sistemas de produção e distribuição de alimentos. Economia, ecologia, agronomia e nutrição se complementam e certamente os conhecimentos de cada área fazem todo sentido quando atuamos em sinergia. Muita reflexão e aprendizagem! 

De lá, fomos direto à Bioloja, ponto de venda dos produtos do Sítio Bahia na entrada do bairro Demetria. Espaço bem amplo com mesas e cadeiras de madeira que mais parecem peças de decoração em meio às árvores. Uma quadra com areia e playground com grandes brinquedos de madeira entrelaçados nas árvores garantem o sossego dos pais e crianças. Ali também funciona a padaria artesanal. Certamente o melhor pão de mel e rosquinha de canela que já comi na vida! O espetáculo da tarde são os periquitos. Dezenas baixam das árvores para comer as sementes dos girassóis gigantes que cercam o final da Bioloja. E levantam voos todos juntos cantando alto e logo voltam, dando rasantes sobre os girassóis e quem estiver por perto. 

A terceira e última visita foi ao Sítio do Marcelo. E é assim mesmo que chama! Pai e mãe do Marcelo, irmã, cunhado e outros familiares tocam a vida nesse sítio produtor de tudo quanto é tipo de folhas. Nunca vi tanta variedade de tons de verde! Há quase 20 anos, essa família produz organicamente hortifrúti. Imaginem quanta experiência e conhecimento eles têm. Não é à toa que são referência para muitos outros agricultores e até mesmo para engenheiros agrônomos. Passeamos pelos cultivos de muitas folhas, vagens, ervas aromáticas, milho e legumes. Até a PANC (Planta Alimentícia Não Convencional) caruru (ou bredo) tem. Descubro porque a mandioquinha é a mais cara de todas as raizes: ela leva quase 10 meses entre semear e colher. Qualquer outro tubérculo ou raiz dá muito menos trabalho.

Marcelo entende bastante da legislação e certificação para um produto ter o selo de orgânico. Ele me explica direitinho como funciona o processo  estruturado dentro do Ministério da Agricultura. No pequeno galpão na entrada do sítio funciona uma feira em que as famílias da comunidade local podem adquirir produtos orgânicos frescos. Os agricultores se conectam e revendem produtos uns dos outros, assegurando variedade de frutas, legumes e folhas. Vi melão, melancia, pêssego, abacaxi, morango, damasco, nêspera, maçã, pêra, uva, laranja, mixirica, limão, mamão, banana prata, banana nanica, batata, inhame, cará, mandioquinha, cenoura, beterraba, brócolis ninja, brócolis ramoso, couve-flor, tomate, tomate-cereja, chuchu, abobrinha, abóbora, agrião, rúcula, alface lisa, crespa, romana, americana, roxa, almeirão, repolho, coentro, hortelã, salsa, cebolinha, feijão carioca e parei de enumerar tantas cores e variedades.

Em todas as visitas, as crianças provavam curiosas tudo que colhiam ou lhes era oferecido. Seguramente não vejo nenhuma estratégia melhor para diminuir seletividade alimentar do que conhecer de onde vem o que comemos!!

Desejo que toda criança e toda família possa vivenciar um dia num sítio orgânico familiar e o dia-a-dia dos agricultores. Gente amorosa, humilde, feliz, em paz. Provavelmente pelas pazes que vivem com o meio-ambiente, com a economia, com a própria saúde e a saúde coletiva do planeta. Minha gratidão por nos receber com tanto carinho e sobretudo minha eterna gratidão pela nutrição que trazem toda semana até nós.

Salva de palmas a todos eles!

Ah! Se desejar saber mais dessa viagem, visite minha galeria de fotos no stories do instagram clicando aqui.

 

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