A balança mostra apenas um número. Mas o corpo humano é muito mais do que peso. Ele é formado por tecidos com funções diferentes, que se comunicam entre si e determinam nossa saúde metabólica, funcionalidade e bem-estar.
Entre esses tecidos, dois têm papel central: o tecido adiposo (gordura) e o tecido muscular. Eles não são apenas “estoques” ou “volume corporal”. São órgãos ativos, hormonais e adaptáveis ao ambiente alimentar, emocional e comportamental.
Entender essa arquitetura interna ajuda a sair do foco exclusivo do emagrecimento e entrar no que realmente importa: composição corporal, metabolismo e saúde de longo prazo.
Peso, massa gorda e massa magra: não são a mesma coisa
Antes de tudo, é importante separar alguns conceitos:
- Peso corporal é a soma de tudo: água, ossos, órgãos, músculo, gordura e conteúdo intestinal.
- Massa gorda corresponde ao tecido adiposo.
- Massa magra inclui músculo, ossos, vísceras, água e proteínas estruturais.
Duas pessoas podem ter o mesmo peso e corpos completamente diferentes por dentro. Por isso, saúde não se avalia apenas na balança, mas pela qualidade e proporção dos tecidos.
Tecido adiposo: muito além de estoque de energia
O tecido adiposo é um verdadeiro órgão endócrino. Ele não serve apenas para armazenar energia: ele conversa com o cérebro, o fígado, o músculo, o pâncreas e o sistema imunológico.
Funções do tecido adiposo
- Armazenar e liberar energia.
- Produzir hormônios.
- Regular apetite e gasto energético.
- Modular inflamação.
- Proteger órgãos e ajudar no controle térmico.
Hormônios produzidos pela gordura
As células do tecido adiposo liberam diversas substâncias:
- Leptina: sinaliza saciedade e disponibilidade energética.
- Adiponectina: melhora a sensibilidade à insulina.
- Citocinas inflamatórias: aumentam quando as células estão muito cheias.
- Estrogênios: produzidos por conversão hormonal, especialmente importantes após a menopausa.
Por isso, não existe “gordura neutra”. O tecido adiposo influencia diretamente metabolismo, inflamação e risco cardiometabólico.
Gordura subcutânea e visceral: não são iguais
Gordura subcutânea
- Fica logo abaixo da pele.
- É metabolicamente mais segura.
- Produz mais substâncias protetoras.
- Consegue se expandir de forma mais saudável.
Ela funciona como um “amortecedor” energético.
Gordura visceral
- Envolve órgãos como fígado e intestino.
- Libera gordura direto para a circulação.
- Produz mais substâncias inflamatórias.
- Está ligada a resistência à insulina e risco cardiometabólico.
O problema não é apenas ter gordura, mas onde ela se acumula e como o tecido consegue se expandir.
Tecido muscular: um órgão metabólico e endócrino
O músculo não serve só para movimento. Ele é um órgão metabolicamente ativo, essencial para o controle do açúcar no sangue, do gasto energético e da saúde geral.
Funções do músculo
- Movimento e sustentação do corpo.
- Principal local de uso da glicose do sangue.
- Reserva funcional de proteínas.
- Produção de calor.
- Regulação do metabolismo.
Mioquinas: os “hormônios” do músculo
Quando o músculo se contrai, ele libera substâncias chamadas mioquinas, que se comunicam com outros órgãos:
- IL-6 do exercício: aumenta o uso de gordura e da glicose.
- Irisina: associada à melhora metabólica.
- BDNF: ligado à função cerebral.
- Miostatina: limita o crescimento muscular.
Por isso, ter mais músculo não é estética: significa melhor controle glicêmico, mais proteção metabólica e mais autonomia ao longo da vida.
Como o corpo constrói ou perde massa muscular
A quantidade de músculo depende do equilíbrio entre dois processos: a síntese de proteínas musculares, que constrói o tecido, e a degradação das proteínas musculares, que o quebra.
Quando a construção é maior que a degradação, ocorre a hipertrofia muscular.
Quando a degradação supera a construção, há perda de massa muscular.
O que favorece a hipertrofia
- Estímulo mecânico, principalmente treino de força.
- Aminoácidos essenciais, com destaque para a leucina.
- Energia suficiente.
- Ação adequada da insulina e do IGF-1.
- Sono e recuperação.
O papel dos carboidratos na construção muscular
A hipertrofia não acontece em um ambiente “sem carboidratos”.
Os carboidratos:
- reabastecem o glicogênio muscular, sustentando a intensidade do treino,
- ajudam a reduzir o cortisol após o exercício,
- favorecem a ação da insulina, facilitando a entrada de nutrientes no músculo,
- criam um ambiente mais favorável à construção muscular.
Quando o glicogênio está baixo, o treino perde qualidade e o corpo entra em maior estresse.
Proteína sozinha não constrói músculo: o que sustenta a hipertrofia é o conjunto estímulo, energia, nutrientes e equilíbrio hormonal.
O que acontece com o corpo em superávit calórico
- o corpo recebe mais energia do que consegue gastar,
- o excesso passa a ser armazenado principalmente em forma de gordura,
- as células de gordura aumentam de tamanho,
- quando ficam muito cheias, o corpo pode formar novas células de gordura,
- parte desse acúmulo pode ir para regiões mais sensíveis, como a gordura visceral.
Se isso acontece com frequência:
- aumenta a produção de substâncias inflamatórias,
- piora o uso do açúcar do sangue,
- cresce a tendência ao acúmulo abdominal,
- sobe o risco metabólico.
Ganhar gordura não depende só de “comer mais”, mas do contexto: sono, estresse, movimento e qualidade da alimentação definem onde e como ela será armazenada.
O que acontece com o corpo em déficit calórico
- a gordura corporal passa a ser usada como combustível,
- as células de gordura vão diminuindo de tamanho,
- o corpo passa a aproveitar melhor o açúcar do sangue,
- há redução de processos inflamatórios,
- o emagrecimento reduz o tamanho das células adiposas, mas não o número delas.
Quando a restrição é exagerada:
- aumenta o estresse do corpo,
- surge mais fome e cansaço,
- cresce o risco de perder músculo junto com gordura,
- fica mais difícil manter os resultados.
Por isso, emagrecer não é só comer menos, mas organizar alimentação, movimento, sono e rotina
Hipertrofia e hiperplasia do tecido adiposo ao longo da vida
O tecido adiposo pode crescer de duas formas: pelo aumento do tamanho das células de gordura (hipertrofia) ou pela formação de novas células (hiperplasia).
- na infância e puberdade, o corpo forma adipócitos (as células do tecido adiposo) com mais facilidade,
- o excesso nessa fase aumenta o número total dessas células para a vida toda,
- na vida adulta, o ganho ocorre principalmente pelo enchimento das células já existentes,
- a formação de novas células ainda pode acontecer, mas é mais limitada.
Quando há emagrecimento:
- as células de gordura esvaziam,
- mas o número delas praticamente não muda.
Em resumo: a infância molda a “arquitetura” do tecido adiposo, e ao longo da vida o que mais varia é o volume dessas células, não a quantidade.
Métodos de avaliação da composição corporal
Avaliar composição é mais útil do que apenas pesar.
- DXA: alta precisão para gordura, músculo e ossos.
- Bioimpedância: prática, depende da hidratação.
- Dobras cutâneas: estimam gordura subcutânea.
- Pletismografia (BodPod): mede volume corporal.
Cada método tem seu papel conforme o objetivo clínico ou esportivo.
Conclusão
O corpo não é uma balança, é um sistema vivo e adaptável.
Gordura e músculo:
- são órgãos ativos,
- respondem ao ambiente alimentar, emocional e comportamental,
- mudam conforme estímulo, energia e rotina.
Cuidar da composição corporal é cuidar da biologia, não da estética.
É construir um corpo com mais músculo funcional, gordura metabolicamente saudável e um ambiente interno que sustente saúde ao longo da vida.
Sem comentários