Introdução
Por que duas pessoas comem praticamente a mesma coisa e só uma delas vê o colesterol subir? Durante muito tempo, a nutrição tentou explicar o colesterol apenas pelo alimento. Hoje, a ciência mostra que o que determina o LDL e o HDL no sangue é uma combinação entre genética, tipo de gordura consumida, padrão alimentar, idade, inflamação, atividade física e a forma como cada organismo metaboliza os lipídios.
Entender essa relação é essencial para orientar escolhas mais precisas e preventivas, tanto em adultos quanto em crianças, indo além de listas prontas de proibições e modismos alimentares.
🧪 LDL e HDL: o que realmente significam
O colesterol não circula sozinho no sangue. Ele é transportado por partículas chamadas lipoproteínas. As principais são:
- LDL (Low Density Lipoprotein) — leva colesterol do fígado para os tecidos. Quando está elevado, parte desse colesterol se deposita nas paredes das artérias, formando placas de aterosclerose que, ao longo dos anos, aumentam o risco de infarto e AVC.
- HDL (High Density Lipoprotein) — faz o caminho inverso: recolhe o excesso de colesterol das artérias e leva de volta ao fígado para reutilização ou eliminação, processo conhecido como transporte reverso do colesterol.
Quando o LDL está alto e/ou o HDL baixo, dizemos que há um perfil lipídico desfavorável, associado a maior risco cardiovascular ao longo da vida. Cuidar do colesterol não é estética: é prevenção.
🧠 O corpo regula o próprio colesterol — mas cada um de um jeito
Cerca de 70 a 80% do colesterol do nosso corpo é produzido no fígado. O restante vem da alimentação. Quando ingerimos colesterol, o organismo tenta compensar reduzindo a produção interna e ajustando a absorção intestinal.
👉 Em algumas pessoas, essa autorregulação funciona bem, e o colesterol do alimento quase não altera o exame.
👉 Em outras, esse mecanismo é menos eficiente: o intestino absorve mais colesterol e o fígado remove menos LDL da circulação, favorecendo o aumento do colesterol sanguíneo.
Essas diferenças explicam por que o mesmo alimento pode ser neutro para uns e problemático para outros.
Nutrigenética: genes que modulam o colesterol
Hoje sabemos que vários genes participam da resposta do organismo ao colesterol e às gorduras da dieta. Entre os mais estudados estão:
- APOE, que influencia como o fígado reconhece e remove o LDL do sangue;
- ABCG5 e ABCG8, que regulam quanto colesterol é absorvido no intestino;
- LDLR, responsável pela captação do LDL pelo fígado;
- APOB, que participa da estrutura das partículas de LDL e VLDL;
- CETP e LPL, envolvidos na troca e no metabolismo das gorduras entre lipoproteínas.
Hoje, a ciência usa escores poligênicos, que somam dezenas ou centenas dessas variações para estimar a susceptibilidade metabólica individual.
Na prática: algumas pessoas são mais “resistentes” ao colesterol da dieta; outras são mais sensíveis, vendo o LDL subir com mais facilidade diante de certos padrões alimentares.
🧈 Gordura saturada: o principal fator dietético do LDL
Durante anos se falou apenas do colesterol dos alimentos. Hoje sabemos que o maior impacto vem do tipo de gordura consumida.
👉 O principal fator dietético que eleva o LDL é a gordura saturada.
Ela reduz a expressão dos receptores de LDL no fígado, fazendo com que o colesterol permaneça mais tempo circulando no sangue.
Está presente principalmente em:
- manteiga e creme de leite,
- queijos amarelos e laticínios integrais,
- carnes gordas e embutidos,
- pele de frango,
- frituras,
- ultraprocessados.
Quando substituímos gordura saturada por gorduras insaturadas (azeite, castanhas, sementes, peixes), o LDL tende a cair.
🍳 Ovo e colesterol: quantidade, frequência e contexto
O ovo é um alimento nutritivo, rico em proteínas, vitaminas e colina. Mas a gema concentra cerca de 180 mg de colesterol por unidade.
A ciência mostra que:
- algumas pessoas compensam bem o colesterol do ovo;
- outras, especialmente com maior susceptibilidade genética, veem o LDL subir quando consomem gemas em excesso.
O impacto depende de:
- número de gemas,
- frequência semanal,
- presença de gordura saturada no conjunto da refeição,
- metabolismo individual.
Não se trata de demonizar o ovo, mas de entender quantidade, frequência e contexto do prato.
📏 Quanto colesterol consumir na dieta?
Hoje não existe um limite rígido universal, mas como referência prática:
👉 cerca de até 300 mg por dia para a população geral,
👉 e valores mais baixos para pessoas com dislipidemia ou maior risco cardiovascular.
Mais importante do que contar miligramas é observar:
- repetição diária,
- combinação com gorduras saturadas,
- padrão alimentar como um todo.
O excesso contínuo, especialmente em pessoas suscetíveis, favorece a elevação do LDL.
🥩 Exemplos de colesterol nos alimentos
Valores aproximados por porção:
- 🥚 1 gema de ovo: ~180 mg
- 🍤 camarão (100 g): ~150 mg
- 🧀 queijo amarelo (30 g): ~30–40 mg
- 🥛 leite integral (1 copo): ~25 mg
- 🥩 carne bovina (100 g): ~70 mg
- 🧈 manteiga (1 colher): ~30 mg
O problema raramente é um alimento isolado, mas o conjunto da rotina alimentar.
🧀 Atenção especial: laticínios e frituras
Os laticínios não trazem apenas colesterol: trazem principalmente gordura saturada, que é o maior motor do LDL.
- queijos amarelos,
- manteiga,
- creme de leite,
- leite integral,
- requeijões.
Já as frituras combinam:
- gordura saturada ou trans,
- oxidação lipídica,
- inflamação metabólica.
Esse conjunto favorece não só LDL mais alto, mas também maior risco de formação de placas.
Por isso, o cuidado não é só com a gema do ovo, mas com um padrão alimentar rico em laticínios gordurosos e frituras frequentes.
👶 Colesterol começa na infância
A aterosclerose é um processo silencioso que pode iniciar ainda nos primeiros anos de vida. Por isso, crianças também merecem atenção.
O colesterol infantil sofre influência de:
- padrão alimentar rico em gorduras saturadas e ultraprocessados,
- sedentarismo,
- herança genética, como na hipercolesterolemia familiar.
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda a dosagem das concentrações de colesterol:
✅ Rastreamento universal
- entre 9 e 11 anos;
- e entre 17 e 21 anos.
✅ Rastreamento seletivo (a partir dos 2 anos)
Quando há:
- histórico familiar de infarto precoce;
- colesterol alto nos pais;
- obesidade;
- diabetes;
- hipertensão;
- sedentarismo importante.
O objetivo não é medicalizar a infância, mas organizar hábitos desde cedo: alimentação, movimento, sono e relação saudável com a comida.
🥦 Alimentos que ajudam a manter o colesterol saudável
Cuidar do colesterol não é só “tirar” alimentos do prato, mas colocar o que protege o metabolismo. Alguns alimentos ajudam ativamente a reduzir o colesterol total (CT) e o LDL e a proteger as artérias.
Eles atuam aumentando a eliminação intestinal do colesterol, reduzindo sua absorção e melhorando o metabolismo hepático das gorduras.
🍎 Frutas
Prefira frutas inteiras, com casca e bagaço.
A fibra solúvel liga-se aos ácidos biliares no intestino, forçando o fígado a usar mais colesterol para produzir bile.
- maçã, pera, laranja com bagaço, frutas vermelhas;
- abacate e avocado, ricos em gorduras monoinsaturadas que ajudam a reduzir LDL e melhorar HDL.
🥬 Folhas e legumes
Folhas e legumes fornecem fibras, antioxidantes e compostos bioativos que:
- melhoram o funcionamento intestinal,
- reduzem a reabsorção do colesterol,
- diminuem inflamação vascular.
Quanto mais colorido o prato, maior a proteção.
🌱 Leguminosas
Feijões, lentilha, grão-de-bico, ervilha, soja, homus e tofu:
- aumentam fibras solúveis,
- substituem carnes ricas em gordura saturada,
- melhoram o perfil lipídico quando entram como base da refeição.
🌾 Cereais integrais
Aveia, quinoa, arroz integral, milho e massas integrais.
A aveia contém beta-glucanas, fibras que reduzem a absorção de colesterol e ajudam a baixar o LDL de forma consistente.
🌰 Nuts e sementes
Castanhas, nozes, amêndoas, chia, linhaça, gergelim e tahine fornecem:
- gorduras boas,
- fitosteróis,
- fibras.
Eles competem com o colesterol pela absorção intestinal e favorecem aumento do HDL.
🍄 Cogumelos
Baixos em gordura e ricos em compostos antioxidantes, ajudam a modular o metabolismo lipídico e são ótimos substitutos culinários de carnes gordas.
🐟 Peixes
Fontes de ômega-3 (EPA e DHA), que:
- reduzem inflamação,
- melhoram a função vascular,
- diminuem triglicerídeos,
- ajudam a estabilizar placas.
🫒 Óleos bons
Azeite de oliva e óleo de linhaça no lugar de manteiga e frituras:
- aumentam a remoção do LDL pelo fígado,
- reduzem oxidação do colesterol,
- protegem o endotélio.
Mais importante que usar azeite é usar no lugar da gordura saturada.
🌿 O conjunto do prato é o que protege
Nenhum alimento age sozinho. O que realmente protege o colesterol total e o LDL é o padrão alimentar:
✔ mais fibras,
✔ mais vegetais,
✔ mais gorduras boas,
✔ menos saturadas e frituras,
✔ mais comida de verdade e culinária.
Não é só cortar: é construir um prato que trabalha a favor do seu metabolismo.
🌿 Personalização: a base da nutrição
O colesterol mostra algo essencial:
👉 não existe dieta única.
Alguns compensam bem.Outros são mais sensíveis. Isso é susceptibilidade genética.
Nutrição não é copiar o prato do outro, é entender corpo, história, cultura alimentar, rotina e prazer.
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